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Correlação entre a anatomia e a ultrassonografia da mama

Identifique as estruturas anatomicas e melhore o desempenho da ultrassonografia mamária

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Correlação entre a anatomia e a ultrassonografia da mama

Conteúdo

Introdução à sonoanatomia da mama

A compreensão da sonoanatomia mamária constitui o alicerce para uma interpretação ultrassonográfica segura, consistente e reprodutível. O reconhecimento sistemático das camadas e planos estruturais da mama, associado ao entendimento dos padrões ecográficos normais, da organização ducto-lobular e da composição tecidual do parênquima, permite localizar adequadamente os achados, diferenciar variações anatômicas de lesões verdadeiras e correlacionar com precisão os diferentes métodos de imagem. Esse conhecimento é fundamental para a aplicação correta dos critérios morfológicos do BI-RADS®, conforme as recomendações mais recentes, e para uma comunicação clara e clinicamente relevante dos resultados. Sem esse alicerce anatômico, a análise ultrassonográfica perde precisão, reprodutibilidade e valor clínico.


Planos estruturais da mama à ultrassonografia 



A anatomia mamária normal apresenta uma organização em camadas bem definidas à ultrassonografia, funcionando como um mapa anatômico fundamental para a localização e a descrição dos achados. Na prática clínica — especialmente na correlação com a mamografia e com a ressonância magnética — identificar a camada tecidual ou a interface anatômica em que uma lesão se localiza costuma ser mais informativo do que estimar sua profundidade absoluta ou a distância exata em relação ao mamilo, parâmetros que podem variar significativamente em função da compressão mamária. A descrição precisa da camada anatômica do achado de imagem, bem como da interface entre camadas adjacentes, contribui para a correta correlação entre diferentes métodos de imagem, auxiliando na interpretação de que achados aparentemente distintos correspondem à mesma lesão.

Da superfície para a profundidade, identificam-se: a pele ecogênica; a gordura subcutânea ou pré-glandular, geralmente isoecóica e atravessada pelos ligamentos de Cooper; a zona fibroglandular, de ecogenicidade predominantemente aumentada; e a gordura retroglandular, novamente isoecóica. Todo esse conjunto repousa sobre o músculo peitoral maior, cuja ecogenicidade é semelhante à da gordura. Além das próprias camadas, as interfaces entre elas — como as fáscias pré- e pós-glandulares — constituem marcos anatômicos importantes para a localização das lesões mamárias. O reconhecimento sistemático dessas camadas e de seus limites é essencial para a correta interpretação dos achados ultrassonográficos e para uma comunicação mais precisa da localização das lesões.



sonoanato_mama
A imagem demonstra a organização em camadas / planos estruturais da anatomia mamária normal, da superfície para a profundidade: pele ecogênica ; gordura subcutânea ou pré-glandular, zona fibroglandular; gordura retroglandular; e músculo peitoral maior, apoiado sobre a parede torácica. O reconhecimento dessas camadas constitui a base da sonoanatomia mamária e orienta a localização e a interpretação dos achados ultrassonográficos.





Zona glandular 

A maior parte dos ductos e das unidades funcionais da mama, incluindo as unidades ducto-lobulares terminais (TDLUs), localiza-se na zona glandular, também denominada zona mamária. Essa região é delimitada anteriormente pela fáscia pré-glandular e posteriormente pela fáscia pós-glandular, que definem seus limites anatômicos à ultrassonografia.


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Zona glandular da mama à ultrassonografia. A imagem demonstra a zona mamária (zona glandular), onde se concentram a maior parte dos ductos e das unidades ducto-lobulares terminais (TDLUs), delimitada anteriormente pela fáscia pré-glandular e posteriormente pela fáscia pós-glandular. O reconhecimento dessas fáscias define os limites anatômicos da zona glandular, local onde se origina a maioria das lesões mamárias detectadas ao exame ultrassonográfico.




A fáscia pré-mamária atua como uma barreira anatômica relativa à progressão superficial das lesões originadas na zona glandular. Como consequência, muitas lesões tendem a crescer preferencialmente no sentido ântero-posterior, ultrapassando planos teciduais, em vez de se expandirem paralelamente à pele. Esse comportamento anatômico explica, em parte, o padrão “taller-than-wide”, considerado um critério morfológico suspeito na ultrassonografia mamária.

nodulo_zona_mamaria
Nódulo mamário com diagnóstico histopatológico de carcinoma ductal invasivo. Observa-se que a lesão permanece confinada à zona glandular, sem ultrapassar a fáscia pré-glandular (linha pontilhada), ilustrando o papel dessa fáscia como barreira anatômica relativa à extensão superficial da doença.







Ductos mamários


Os ductos mamários apresentam-se à ultrassonografia como estruturas lineares hipoecoicas a isoecoicas, com disposição radial a partir da papila, semelhante aos raios de uma roda. Próximo à papila, seguem um trajeto mais vertical (ântero-posterior), tornando-se progressivamente mais horizontais à medida que se afastam.

O aspecto sonográfico dos ductos é altamente variável e depende principalmente da quantidade de estroma periductal frouxo fibroelástico, do grau de distensão luminal por secreções e da ecogenicidade desse conteúdo. Esse estroma periductal, relativamente isoecoico, pode aumentar o tamanho aparente do ducto, fazendo com que pareça maior do que seu lúmen real.

Em condições ideais, a parede ductal pode ser identificada como uma linha ecogênica fina em cortes longitudinais e como um eco central circular ou linear nos cortes transversais, especialmente na ausência de ectasia ductal.

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Ducto mamário (linhas amarelas) avaliado desde a papila (*) até os quadrantes laterais da mama esquerda. Observam-se paredes anterior e posterior finas, que ao ultrassom aparecem como linhas ecogênicas paralelas, podendo estar sobrepostas ou separadas por conteúdo líquido laminar anecoico (como neste caso). No esquema adjacente, as paredes ductais foram destacadas em amarelo. Externamente às paredes ductais, identificam-se os estromas periductais, constituídos por tecido frouxo de natureza fibroelástica, com ecogenicidade isoecoica em relação à gordura, No esquema adjacente, o estroma periductal foi destacado em azul.


Ducto mamário (setas azuis) avaliado desde a papila (*) até os quadrantes laterais da mama esquerda. Observam-se as paredes anterior e posterior finas, representadas por linhas ecogênicas paralelas, separadas por conteúdo líquido laminar anecoico. Adjacente às paredes ductais, identifica-se o estroma periductal frouxo, de natureza fibroelástica, com ecogenicidade isoecoica em relação à gordura.


Lóbulos de gordura


Os lóbulos de gordura mamários são estruturas frequentes e fazem parte da anatomia normal da mama, podendo simular nódulos sólidos à ultrassonografia e constituir fonte tanto de falsos-positivos quanto de falsos-negativos. Cada lóbulo de gordura pode apresentar aspecto nodular em determinados planos de corte, mas geralmente faz parte de uma lâmina contínua de tecido adiposo, em continuidade com a gordura pré-mamária ou retromamária.

Uma característica fundamental é a alta compressibilidade: os lóbulos de gordura são as estruturas mais compressíveis da mama, frequentemente apresentando redução ≥ 30% da dimensão ântero-posterior à compressão com o transdutor, o que constitui forte evidência de natureza adiposa e benignidade (lóbulo de gordura ou lipoma).

Além disso, os lóbulos de gordura não indentam estruturas adjacentes quando comprimidos, ao contrário de nódulos sólidos verdadeiros, como fibroadenomas ou carcinomas, que tendem a deformar tecidos vizinhos.

Frequentemente, os lóbulos de gordura são subdivididos por septos fibrosos finos, visíveis ao ultrassom como linhas ecogênicas retas, geralmente orientadas horizontalmente. Esses septos tornam-se mais evidentes com leve compressão e ajustes finos do posicionamento e do ângulo do transdutor, ajudando a diferenciá-los de nódulos sólidos verdadeiros.

liposusbst
As marcações em amarelo indicam áreas em que o parênquima fibroglandular foi substituído por gordura, com ecogenicidade isoecoica à gordura pré-glandular (lipossubstituição). Observam-se linhas ecogênicas retas, orientadas horizontalmente, correspondentes a septos fibrosos finos que subdividem os lóbulos de gordura, achado que auxilia na sua caracterização diagnóstica.





Ligamentos de Cooper 

Os ligamentos de Cooper fazem parte do tecido fibroso de sustentação do parênquima mamário. Tratam-se de pregas da fáscia mamária pré-glandular que se estendem da zona mamária até a pele. A espessura da zona mamária é máxima sob os ligamentos de Cooper e entre os seus folhetos o parênquima fibroglandular se projeta em direção à pele, tornando esses os pontos mais propensos à progressão do câncer de mama em direção à pele. 


Lig_Cooper
As setas indicam um ligamento de Cooper, interpretado à ultrassonografia como uma linha ecogênica estendendo-se da zona mamária à pele Involução do parênquima fibroglandular



Em fases mais avançadas da involução, remanescentes da zona mamária podem persistir nos pontos de pregueamento da fáscia pré-glandular, correspondentes aos ligamentos de Cooper.


Lig_Cooper_involucao
Persistência de estroma fibroso/interlobular sob o ligamento de Cooper, evidenciada por espessamento e maior ecogenicidade local, representando remanescente da zona glandular no processo de involução mamária


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Gordura pré-glandular 

A maior parte das lesões restritas à gordura pré-glandular são patologias da pele e/ou do subcutâneo como lipomas e cistos sebáceos.





Gordura retroglandular 
A gordura retroglandular encontra-se comprimida entre a zona mamária (zona glandular) e o músculo peitoral maior, apresentando, em geral, espessura menor do que a gordura pré-glandular. Em alguns casos, essa camada adiposa pode estar muito delgada ou até não ser claramente identificável à ultrassonografia, o que dificulta a avaliação da relação de lesões profundas com o músculo peitoral maior e a determinação precisa de possível comprometimento muscular.


Unidade funcional da mama 

Durante a vida reprodutiva da mulher, o parênquima glandular mamário é constituído  por entre 15 e 20 lobos. Cada lobo é formado por vários lóbulos e ductos, que se unem para constituir os ductos principais. A maior parte das patologias malignas da mama se originam nas unidades ducto-lobulares terminais. 


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A unidade ducto-lobular terminal (TDLU) constitui a verdadeira unidade funcional e patológica da mama, sendo o local de origem da maioria das lesões benignas e malignas. As alterações ultrassonográficas refletem, em grande parte, a interação dessas lesões com a arquitetura lobar, ductal e com o estroma periductal. Inicialmente, os processos patológicos tendem a respeitar a organização segmentar dos ductos e lóbulos, adquirindo padrões de crescimento previsíveis. A ruptura dessa arquitetura explica muitos dos achados morfológicos descritos no BI-RADS, como orientação não paralela, margens anguladas e distorção arquitetural.





Correlação histológica e ecotextura à ultrassonografia

Unidade ducto-lobular.


O tecido estromal fibroso interlobular apresenta, à ultrassonografia, ecotextura predominantemente hiperecóica, refletindo sua maior densidade e conteúdo colágeno. Em contraste, o tecido glandular propriamente dito — constituído pelos lóbulos — e os elementos ductais tendem a apresentar ecotextura isoecóica ou discretamente hipoecóica em relação à gordura pré-glandular.

Essa heterogeneidade ecográfica é fisiológica e decorre da íntima interposição entre estroma fibroso, unidades ducto-lobulares e tecido adiposo. O reconhecimento dessa arquitetura normal é fundamental para evitar a interpretação equivocada de áreas hipoecóicas como lesões sólidas, quando na realidade correspondem a tecido glandular normal ou ductal.


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A imagem histológica demonstra o lóbulo mamário e os elementos ductais imersos em estroma fibroso interlobular. À ultrassonografia, o estroma fibroso corresponde às áreas hiperecóicas, enquanto os lóbulos e ductos apresentam ecotextura isoecóica ou discretamente hipoecóica em relação à gordura pré-glandular. Essa organização explica a aparência heterogênea normal do parênquima mamário ao exame ultrassonográfico.





 
Composição tecidual e padrão de ecotextura mamária 
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A composição tecidual da mama apresenta ampla variabilidade individual e, assim como na mamografia, essa variação também se reflete nos achados ultrassonográficos. O padrão de ecotextura observado ao ultrassom depende da proporção entre os componentes glandulares (ductos e unidades ducto-lobulares terminais) e o estroma fibroso no interior da zona fibroglandular, localizada entre a gordura subcutânea (pré-glandular) e a gordura retroglandular.

Diferentemente da mamografia — na qual tecido glandular e estroma fibroso apresentam densidades semelhantes — a ultrassonografia permite distinguir esses componentes com maior precisão: o tecido glandular e os elementos ductais tendem a apresentar ecotextura hipoecóica ou isoecóica, enquanto o estroma fibroso interlobular é tipicamente hiperecóico. Essa diferença é fundamental para a identificação de lesões verdadeiras e para a correta interpretação do parênquima de fundo.

Com base na composição tecidual predominante, descrevem-se três padrões básicos de ecotextura mamária ao ultrassom, em concordância com o BI-RADS:

  1. Ecotextura de fundo homogênea gordurosa, na qual os lóbulos adiposos e bandas ecogênicas de sustentação predominam;

  2. Ecotextura de fundo homogênea fibroglandular, caracterizada por uma faixa espessa e relativamente homogênea de parênquima fibroglandular sob uma camada delgada de gordura subcutânea, sendo esse o local onde se concentram a maioria das lesões mamárias;

  3. Ecotextura de fundo heterogênea, na qual áreas de gordura isoecóica se intercalam com regiões fibroglandulares hiperecóicas, refletindo maior complexidade arquitetural do parênquima.

O reconhecimento do padrão de ecotextura de fundo é essencial, pois influencia diretamente a conspicuidade das lesões, a avaliação de seus limites e a aplicação adequada dos critérios morfológicos do BI-RADS.




Componente glandular do tecido mamário 

A ultrassonografia permite uma avaliação detalhada da composição tecidual da mama, diferenciando os componentes glandular e estromal da zona fibroglandular com base na ecogenicidade. O tecido glandular, representado principalmente pelas unidades ducto-lobulares terminais (TDLUs), apresenta-se tipicamente hipoecoico ou isoecoico, enquanto o estroma fibroso interlobular é predominantemente hiperecogênico.

zona fibroglandular não corresponde exclusivamente ao tecido glandular, podendo conter proporções variáveis de estroma e TDLUs. Por isso, o BI-RADS Ultrassonografia 2025 introduz o conceito de componente glandular do tecido mamário (Glandular Tissue Component – GTC), definido como a proporção da zona fibroglandular ocupada por TDLUs, estimada qualitativamente à ultrassonografia.

O GTC é classificado como mínimo (< 25%), leve (25–49%), moderado (50–74%) ou acentuado (≥ 75%). Estudos demonstram que componentes glandulares moderados ou acentuados estão associados a maior risco futuro de câncer de mama, de forma comparável à densidade mamográfica elevada ou ao aumento do realce parenquimatoso na RM.

A descrição do padrão de ecotextura de fundo e do componente glandular auxilia na interpretação dos achados, na detecção de lesões e na correlação entre métodos de imagem, podendo ser incluída no laudo como qualificador do fundo fibroglandular.





Referência: 

Stavros
, A. Thomas., Cynthia L. Rapp, and Steve H. Parker. Breast Ultrasound. Philadelphia, Pennsylvania: Lippincott Williams & Wilkins, 2004
BI-RADS 
 American College of Radiology. ACR BI-RADS® Atlas: Breast Imaging Reporting and Data System. 5th ed. Reston (VA): American College of Radiology; 2025. Ultrasound section.
Correlação entre a anatomia e a ultrassonografia da mama